7# ARTES E ESPETCULOS 22.4.15

     7#1 EXPOSIO  O QUE RESTOU DA BELEZA
     7#2 LIVROS  O TERROR DOS MODERADOS
     7#3 VEJA RECOMENDA
     7#4 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#5 J.R. GUZZO  NS SOMOS S ISSO

7#1 EXPOSIO  O QUE RESTOU DA BELEZA
Uma exposio magnfica em Londres mostra que os gregos no apenas souberam enxergar o belo na forma humana: eles definiram por meio da arte o que  belo, e nos ensinaram a v-lo com seus olhos.
EDUARDO WOLF, DE LONDRES

	Em 1996, na costa da Crocia, prximo  Ilha de Losinj, um mergulhador amador encontrou uma peculiar esttua de bronze a 45 metros de profundidade. Recolhida e impecavelmente restaurada por especialistas croatas, tratava-se de uma cpia do perodo helenstico (entre 323 a.C. e 30 a.C.) de uma escultura grega originalmente do quarto sculo antes de Cristo: um atleta de 1,92 metro de altura que o escultor soube notavelmente nos mostrar om cabelos como que suados e empoeirados e que limpa o corpo com um instrumento de ferro recurvado, a estrgil. A beleza do corpo atltico, os detalhes de cobre nos lbios e nos mamilos, a superao tcnica do artista ao transmitir a impresso do suor a cobrir o corpo do jovem de bronze que parece se mover no gesto de limpeza  nada disso poderamos apreciar hoje no fosse o acaso de um mergulho de lazer. Se nunca tivesse sido encontrado, esse "apoxyomenos" (o atleta "que se limpa", literalmente) seria apenas uma esttua grega a menos que conheceramos. 
     Quem entra na magnfica exposio Defining Beauty: The Body in Ancient Greek Art, em cartaz no British Museum de Londres at 5 de julho, logo depara com o atleta croata e com um conjunto impressionante de obras-primas que, ao longo de 2500 anos, ajudaram a definir uma poro decisiva de nossos mais caros conceitos de arte e de beleza. Diante dessa reunio de peas nicas que contam uma histria nada menos que majestosa, a pergunta sobre o acidente de contarmos ou no com esta ou aquela escultura ganha outra dimenso. A beleza da Afrodite, surpreendida em seu banho e inutilmente tentando esconder o corpo do olhar intruso; os dois mais celebrados modelos da beleza masculina no mundo grego, o Dorforo (o lanceiro), do escultor Policleto, e o Discbolo (o arremessador de discos), de seu contemporneo Mron, expresses matemticas da perfeio do corpo atltico idealizada pelos gregos  todas essas obras nos recebem j na primeira sala da exposio, mas somente as conhecemos graas a inmeras descries em textos antigos e a uma grande quantidade de cpias romanas feitas ao longo dos sculos. Como muitas das mais celebradas esttuas gregas foram produzidas em bronze, material amplamente reutilizado nos sculos seguintes para os mais ordinrios utenslios, so raros os originais da Antiguidade que sobreviveram. 
     Muito alm do acidente material da transmisso histrica, a exposio no British Museum permite uma reflexo de mais longo alcance: e se essas formas artsticas todas no tivessem chegado at ns? Se, por exemplo, tivssemos um grande hiato entre a civilizao grega e a civilizao crist medieval, da qual tambm descendemos de maneira incontornvel? Se os romanos, em vez de admirarem, incorporarem e desenvolverem padres gregos nas artes e nas letras, por exemplo, tivessem aniquilado a cultura que dominaram  ou, para ficarmos em um exemplo mais prximo de nossa realidade, se fossem mais apegados  inovao a todo custo em detrimento do apreo s lies do passado?  possvel dizer, sem exageros, que simplesmente no seramos aquilo que somos  no apreciaramos o que apreciamos, no nos emocionaramos com o que nos emociona, no veramos beleza no que julgamos belo. 
     A comear por isto: a ideia mesma de que a beleza fsica no  simplesmente imitada de um modelo real que encontramos no mundo mas sim aperfeioada por meio da arte  da tcnica do artista   uma herana grega profundamente arraigada em nosso julgamento sobre o que  belo. E, se a ordem matemtica de Policleto e a energia calculada de Mron ainda esto presentes em nossa sempre renovada admirao pela harmonia, pelo equilbrio e pela proporo das formas, outro fenmeno da escultura grega do perodo, Fdias, soube mostrar que essa idealizao rigorosa da beleza era compatvel com a intuio e com a vivacidade nas artes, no sendo apenas regida pela preciso detalhista. Sua imponente esttua do deus-rio Ilissos, um mrmore original de uma figura masculina reclinada que  puro movimento, enfeitava o glorioso Partenon no apogeu da Atenas do sculo V a.C. e  exibida ao lado dos demais atletas, completando o time de ouro de escultores gregos do sculo de Pricles. No  por outro motivo que pocas artsticas to distintas como o Renascimento e o Romantismo puderam, cada qual a seu modo, beber em fontes gregas  razo e emoo, clculo e instintos, tudo estava ali. 
     Se a beleza vai se definindo assim, como quer a exposio, pelos corpos que os gregos souberam retratar em sua cermica e em sua escultura, tambm isso  uma herana do mundo de Plato e de Sfocles, hoje indissocivel de nossa sensibilidade. Da Afrodite (ou Vnus) flagrada nua  a nica deusa do Olimpo a ser assim representada  aos jovens atletas competindo; das formas delicadas da deusa ris sugeridas pelo fino tecido (um verdadeiro milagre do escultor) comprimido contra seu corpo aos corpos nus de homens e centauros combatendo, como registram os frisos do Partenon, a definio de beleza que o espectador vai formulando para si coincide com uma verdadeira celebrao do nu como forma artstica. E foi precisamente assim que o grande crtico e historiador da arte Kenneth Clark definiu a questo: "O nu  uma forma artstica inventada pelos gregos no sculo V. a.C., assim como a pera  uma forma artstica inventada na Itlia do sculo XVII". E nada melhor que justamente essa forma artstica para nos reconhecermos no nascimento mesmo de nossa arte e de nossa cultura. 
     Talvez por isso, por nos oferecer uma espcie de percurso resumido das origens de nossa sensibilidade artstica, um dos mritos da exposio no British Museum esteja em nos projetar para alm de tudo aquilo que exibe: vemos as distintas Afrodites aqui representadas, as diferentes poses que os corpos todos assumem, e somos remetidos a tantos outros monumentos da histria da arte ocidental. Como no reconhecer a maestria do escultor que fez do mrmore um tecido junto ao corpo de uma deusa no Partenon nas esculturas do italiano Gian Lorenzo Bernini, vinte sculos depois? Como contemplar o triunfo da arte sobre a rocha fria que  o gigantesco Dionsio reclinado, um desenho de Fdias para o Partenon, e no perceber seu eco em certas figuras de Henry Moore 2500 anos depois? E, mesmo que no soubssemos nada dessa histria, simplesmente deixar nosso olhar ser atrado por todas essas formas que encarnaram nossos mais elevados ideais de beleza ao longo dos sculos para, no fim, determo-nos diante do Torso de Belvedere  um fragmento de perfeio que ningum menos que Michelangelo Buonarroti considerou insupervel  j seria uma viagem completa pela histria da beleza. Uma histria que, por razes muito particulares e com todos os acidentes e acasos que hoje to bem conhecemos, tornou-se uma histria universal:  a histria das formas, das cores e das energias criativas de todos quantos so capazes de com ela se relacionar. 


7#2 LIVROS  O TERROR DOS MODERADOS
Em Submisso, fantasia poltica de Michel Houellebecq, o islamismo domina a Repblica francesa sem recorrer  jihad  graas  covardia de polticos e intelectuais.
JERNIMO TEIXEIRA

     Na semana em que sua redao foi atacada por terroristas islmicos e doze de seus jornalistas foram assassinados, o satrico Charlie Hebdo trazia na capa uma caricatura de Michel Houellebecq. O escritor francs estava ento lanando Submisso, que agora chega ao Brasil (traduo de Rosa Freire D'Aguiar; Alfaguara; 256 pginas; 39,90 reais, ou 29,90 na verso eletrnica). O romance  uma brilhante, ainda que irregular, pea de fico poltica, que imagina a Frana governada por um partido muulmano em 2022. A coincidncia dos eventos  atentado e lanamento do livro  convidaria a saudar a atualidade do romance e talvez at o dom de prescincia do escritor. No  o caso: quase nada se diz sobre o jihadismo em Submisso. Na especulao de Houellebecq, no so radicais de metralhadora que pem abaixo os fundamentos de uma repblica moldada no fogo e no sangue das revolues. Quem afinal comea a trocar as leis laicas pela sharia  incluindo a legalizao da poligamia e normas sobre o decoro das roupas femininas   um poltico de fala mansa, Mohammed Ben Abbes, que vence as eleies presidenciais, com apoio de socialistas e conservadores, contra Marine Le Pen, da ultradireitista Frente Nacional. Houellebecq, sempre provocador, parece sugerir que o perigo mais insidioso est entre aqueles muulmanos que, nas semanas depois dos atentados, apareciam abraando sinagogas e carregando cartazes de "Je suis Charlie". Em Submisso,  o islamismo dito "moderado" que vence, pelo cansao, a democracia liberal. 
     Em 1998, quando lanou Partculas Elementares, o autor consagrou-se como o enfant terrible da literatura francesa, e tem feito por merecer o ttulo mesmo agora que se aproxima dos provectos 60 anos. Mas que no se confunda sua permanente provocao com inconsequncia ou leviandade: Houellebecq  um escritor srio, como sabem ser srios s os grandes satiristas. Ainda que a histeria militante queira acus-lo de "islamofobia", o fato  que o fuzil crtico de Submisso aponta no tanto para a religio islmica, mas antes para a Europa em geral e para a Frana em particular. O argumento de fundo da narrativa  que o humanismo laico professado pelos meios intelectuais do Ocidente carece da convico e da tmpera necessrias para sustentar seus valores e instituies. 
     Embora a narrativa acompanhe uma reviravolta no governo francs e faa vrias figuras reais  Franois Hollande, Marine Le Pen, Nicolas Sarkozy  figurarem nas proximidades do fictcio Ben Abbes, o centro do romance no est nos gabinetes ministeriais, mas no mundo acadmico. O protagonista  Franois, um professor universitrio de literatura, especialista na obra de J.K. Huysmans (1848-1907), romancista francs que foi do naturalismo ao decadentismo e da ao catolicismo. Como o Meursault de O Estrangeiro, de Albert Camus, Franois l pelas tantas recebe a notcia da morte da me (e depois tambm do pai) com total indiferena. No  propriamente cnico, mas desencantado, e seu desapego das paixes polticas faz dele um observador acurado das transformaes da Frana. Descontado o artifcio barato do agente dos servios de inteligncia que entra em cena s para explicar certas maquinaes partidrias, Houellebecq conduz sua doida especulao poltico-cultural com mo gil e hbil. 
     O momento crucial da histria  o dilogo entre Franois e Robert Rediger, intelectual alado ao posto de reitor (mais tarde, ministro) pela nova ordem. Rediger lembra o momento em que se converteu ao islamismo: foi em Bruxelas, quando fecharam o bar do Hotel Metrpole, cuja beleza art nouveau ele tanto admirava. "Nesse momento, compreendi: a Europa cometera suicdio", diz. Franois, em certa medida, compartilha dessa desiluso com um mundo  o nosso mundo  em que as coisas belas so desprezadas, as melhores instituies, desmanteladas, a mediocridade, premiada. Mas, por mais que o fascine a histria da converso de seu autor amado, Huysmans, a f no est ao alcance de Franois. Submisso  um fruto tardio e melanclico de uma tradio francesa que remonta no mnimo at Cndido, de Voltaire: o romance de ideias. A ideia central aqui  que j no h, na Frana ou na Europa, nenhuma ideia que salve. 


7#3 VEJA RECOMENDA
CINEMA
AS MARAVILHAS (LE MERAVIGLIE, ITLIA/SUA/ALEMANHA, 2014. J EM CARTAZ NO PAS)
 Com seus olhos srios e sua fisionomia sempre grave e composta, a estreante Maria Alexandra Lungu , apesar de mal entrada na adolescncia, uma atriz nata  e de primeiro calibre. Como Gelsomina, a filha mais velha de uma famlia de expatriados urbanos em uma pequena fazenda na Toscana, ela  o foco e o centro deste drama de inspirao autobiogrfica da diretora italiana Alice Rohrwacher. O pai, Wolfgang (Sam Louwyck), sua mulher, Anglica (Alba Rohrwacher, irm da diretora), as quatro filhas e a amiga Coc (Sabine Timteo) vivem apinhados em uma velha casa malcuidada, cultivam uma horta e cuidam de uma centena de colmeias, resistindo quixotescamente a caadores, especulao imobiliria, regras da Comunidade Europeia e qualquer outra coisa que, no entender de Wolfgang, ameace suas aspiraes telricas. Gelsomina  o lastro dessa famlia meio  deriva, seu elemento responsvel e tambm o mais sacrificado: em tudo o pai depende dela, e apavora-lhe que, crescendo, a menina escape de sua rbita. Filmando em um estilo ntimo e naturalista, a diretora pe em relevo a atuao de Maria Alexandra e captura um flagrante de uma personalidade em florescimento.

O DIRIO DA ESPERANA (A NAGYFOZET, HUNGRIA/ ALEMANHA/USTRIA/FRANA, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 Gmeos podem chamar demais a ateno, diz o pai, no vero de 1944, antes de voltar para o front; a me, sem sada, deixa os dois meninos (Lszl e Andrs Gumnt), de seus 13 anos, com a me que ela no v h duas dcadas  uma velha bruta e dura que mora numa chcara prximo a um vilarejo. Sozinhos com a av (a magistral Piroska Moinar), que os obriga a trabalhar como adultos e os insulta sem parar, os gmeos rapidamente entendem que no so mais as crianas bem cuidadas e protegidas de antes, e que nesta Hungria espremida entre os nazistas e os soviticos tero de se tornar algo diverso: mais rudes, mais selvagens, mais resistentes e adeptos de um outro senso de justia. Um filme originalssimo e imprevisvel do diretor Jnos Szsz, de Woyzeck (1994).

DISCO
CABEA FEITA: SILVRIO PESSOA CANTA JACKSON DO PANDEIRO (INDEPENDENTE)
 Silvrio Pessoa h tempos resgata a obra do paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982). O chamado "rei do rojo" era sempre  revisitado pelo Cascabulho, antiga banda de Pessoa, e foi tema de Micrbio do Frevo (2003), disco em que o cantante pernambucano deu ares de modernidade ao repertrio frevstico de Jackson. Em Cabea Feita, Pessoa retoma essa frmula de sucesso, mas sem tantas modernices. Os arranjos esto prximos  concepo original do paraibano, reforados por um time impecvel de instrumentistas. O maestro Spok colabora com um gaiato solo de saxofone soprano em Coco Social. Dudu do Acordeon reproduziu a sonoridade dos principais sanfoneiros que trabalharam com Jackson do Pandeiro e d um show no pot-pourri, que inclui msicas como Vou de Tutano.

LIVRO
CARMEN E OUTRAS HISTRIAS, DE PROSPER MRIME (TRADUO DE MRIO QUINTANA; ZAHAR; 536 PGINAS; 69,90 REAIS, OU 29,90 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 Na Paris de meados do sculo XIX, a figura de Prosper Mrime chamava ateno: dndi de constituio frgil e modos refinados, especialista em lnguas e arqueologia, ele era ntimo da imperatriz de planto e chefiou o departamento de proteo aos monumentos histricos da Frana. Sua obra literria promove um amlgama das reas de interesse desse intelecto cintilante. Na traduo do poeta gacho Mrio Quintana (1906-1994), que agora ganha edio atualizada, os contos e novelas reunidos neste volume revelam-se iguarias primorosas. As dezoito histrias entremeiam ironia, tiradas de humor, referncias cultas e lances fantsticos. Atestam, sobretudo, o gosto irresistvel do autor por lugares e tipos exticos. Carmen, a novela do ttulo, fala da famosa femme fatale andaluza que inspirou a pera de Georges Bizet (1838-1875). Na sombria Vnus de Ille, uma esttua achada na regio dos Pireneus ressuscita uma misteriosa maldio dos tempos pagos.

 OS MAIS VENDIDOS VEJA
Com os setenta anos da morte do francs Antoine de Saint-Exupry (1900-1944), seu clssico infantil O Pequeno Prncipe entrou em domnio pblico. Isso causou um rebulio no mercado editorial. Para ampliar a divulgao e fazer frente a edies concorrentes, a Agir, at ento detentora dos direitos, negociou com os livreiros a diminuio do preo de capa e a exposio frequente dos exemplares em lugar de destaque nas lojas. No caminho, esbarrou com outras quatro editoras que publicaram a obra. Assim, h prncipes meninos para todos os gostos: em verso brochura, pocket, de capa dura e luxuosa. "Voc  eternamente responsvel por aquilo que cativa", avisa a raposa para o heri, na frase mais lembrada da fbula. E Saint-Exupry continua cativando os leitores: eis seu singelo livro, publicado originalmente h 72 anos, mais uma vez em primeiro lugar na lista de mais vendidos.
BRUNO MEIER


7#4 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
3- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
4- Cinderela Pop. Paula Pimenta. GALERA RECORD
5- Convergente. Veronica Roth. ROCCO
6- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO 
7- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO
8- Cinquenta Tons Mais Escuros. E.L. James. INTRNSECA 
9- Simplesmente Acontece. Cecelia Ahern. NOVO CONCEITO
10- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA 
3- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO
4- Elis Regina  Nada Ser Como Antes. Julio Maria. MASTER BOOKS 
5- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA
6- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
7- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
8- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
9- Fala, Galvo. Galvo Bueno e Ingo Ostrovsky. GLOBO
10- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
3- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
4- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE
5- O Jeito Disney de Encantar os Clientes. Disney Institute. SARAIVA
6- O Poder da Escolha. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
8- O Livro do Bem. Ariane Freitas e Jessica Grecco. GUTENBERG 
9- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE 
10- O Cdigo da Inteligncia. Augusto Cury. SEXTANTE 


7#5 J.R. GUZZO  NS SOMOS S ISSO
     H vrios anos o Brasil se acostumou a ouvir do governo, das suas principais lideranas e dos chefes do seu partido que o pas se divide em dois  "ns" e "eles". Esse "ns" quer dizer, em resumo, o ex-presidente Lula, seus admiradores e os que mandam hoje na mquina do governo; segundo a viso oficial, representam todas as virtudes possveis de encontrar na vida pblica, e por isso so os nicos que tm o direito de governar. "Eles" so todos os demais, e principalmente quem no concorda com as atitudes e os atos do ex-presidente, do PT e do governo nestes ltimos doze anos.  uma maneira doente, em qualquer tipo de situao, de fazer poltica  no  assim que funciona uma democracia. Na situao de hoje, ento, falar em "ns" e "eles"  um perigo. "Ns" quem, por gentileza? Faz parte desse "ns", sem nenhuma possibilidade de dvida, o tesoureiro nacional do PT, Joo Vaccari Neto, que vinha ocupando seu cargo com o apoio total de Lula e do sacro colgio do partido  e o homem, santo Deus, acaba de ir para a cadeia. Nunca antes na histria deste pas foi to melhor ser "eles".  
     A priso de Vaccari  um desastre a mais numa srie que parece no ter fim. O tempo passa, o mundo gira e viemos todos, a folhas tantas, dar com a situao que se formou nas ltimas semanas: quando Lula, o PT e o seu sistema de propaganda, forados pela presena da populao nas ruas, tiveram de olhar em volta de si mesmos, acabaram vendo que "eles", como dizem, so muito mais numerosos do que "ns".  como se descobrissem, de repente, que sua conta est errada: "Mas ser que 'ns' somos s isso?" Sim, so s isso  mais Vaccari. Na hora de colocarem gente na rua, constataram que as massas populares que imaginam comandar no existem no mundo dos fatos. Contam apenas com os subordinados a quem podem dar ordens, tirados como sempre do quadro de servidores da CUT, MST, UNE e outros grupos que s vo para a praa pblica se os chefes mandarem. Vo em nibus fretados e pagos com dinheiro pblico, no trabalham, precisam receber lanche e mesada em dinheiro, jogam pedra na polcia, metem o p no vidro de carros, derrubam latas de lixo; no sabem fazer outra coisa. J o que chamam de "eles" fizeram em menos de um ms as maiores manifestaes populares que o Brasil j viu desde a campanha pelas eleies diretas, trinta anos atrs. Vo para a rua por sua livre deciso e por sua prpria conta; na segunda delas estiveram presentes em 500 cidades. Quem, ento,  a maioria e quem  a minoria neste pas? 
     A conta para valer, na verdade, sempre foi esta. Francamente: d para acreditar que invasores de imveis, bandos de mascarados que destroem mudas de eucalipto e outros grupos marginais representam a maioria da populao brasileira?  claro que no d. J a maioria verdadeira, que agora aparece em peso em todos os cantos do pas, mostrou mais uma vez que guas quietas podem ser muito fundas. Praticamente ningum, h pouco mais de um ms, seria capaz de prever que um chamado feito por voluntrios annimos pudesse levar multides  rua; imaginar que 200.000 pessoas, por exemplo, sairiam de casa para protestar contra o governo parecia um completo disparate. Parecia, mas no foi  o que, entre tantas outras coisas, serve para recomendar um pouco mais de humildade a todos os que imaginam que a vida se resume s suas prprias certezas, a comear pelo governo. Suas Excelncias se acostumaram a dizer que so os primeiros e nicos, em toda a histria, a representar o povo brasileiro. Esto vendo agora que nem o governo Collor, descrito pelo PT como o pior de todos os tempos, conseguiu reunir tanta gente contra si. 
     Lula e o seu universo esto com um problema e tanto. O que a populao est exigindo nas ruas  mais complicado que o "fora Dilma"  quer um pas que funcione, e isso nem Lula, nem Dilma, nem Vaccari so capazes de entregar. Ser que vo perceber que a sua corrente de transmisso continua a girar, mas no est transmitindo nada? A ver. Ao seu redor, por enquanto, fala-se em "vitria", porque houve menos gente na segunda manifestao do que na primeira; imaginam, talvez, que quem foi no dia 15 maro e no foi no 12 de abril se arrependeu e passou a apoiar o governo nesse meio-tempo. D o que pensar  com mais duas ou trs vitrias dessas o PT no precisar se preocupar com nenhuma outra derrota.  a vida. Como diz Jos Saramago, a cegueira  um assunto particular entre as pessoas e os olhos com que nasceram. No h nada que se possa fazer a esse respeito. 


